Existem duas formas de uma produção não ter copyright: ou já expirou a validade dessa mesma propriedade intelectual ou não é considerada uma criação original. É fácil encontrar imagens que nunca foram consideradas originais ou cujos direitos autorais já tenham expirado. É igualmente fácil argumentar que nenhum artista cria sem beber directamente do trabalho de muitos outros, que portanto partilham com ele a autoria e põem em causa a originalidade do que criou. Nessa linha de pensamento é realmente impossível encontrar um trabalho verdadeiramente original. Assim, a pureza daquilo que surge do nada é portanto absurda. O trabalho é sempre uma transformação de um contexto por muito radical que pareça, pois tal como a palavra radical indica tem sempre uma raiz. Quanto mais radical, mais fundo escava as raízes, o passado, para trazer visões que entram em atrito com a vivência do tempo presente.

A propriedade intelectual e a originalidade do artista são objecto da produção artística contemporânea, principalmente pela centralidade da apropriação que a caracteriza. Outra faceta crucial da propriedade nos dias de hoje, relativamente à obra de um artista, é a indicada por Agamben1, o qual nos isola apenas duas alternativas: o mercado ou o museu. Nesse contexto é a propriedade que mais conta. É a validação através da posse que, paradoxalmente, por enquanto, determina os destinos da criação e acima de tudo o seu valor.

Hoje mais do que nunca os limites dos territórios tornam-se difusos, a pintura, a fotografia, a escultura, a colagem, o digital e todos os outros meios de expressão fundem-se tal como os países, os continentes, as culturas… Essa fusão, que também implica uma uniformização, leva-nos a uma aculturação global caracterizada pela perda possivelmente definitiva de diversidade. Talvez estejam a fragilizar-se algumas formas de propriedade do indivíduo em prol do global. Correremos o risco de nos tornarmos uma amalgama desrealizada que alimenta o medo que deriva da tão famosa expressão “too big to fail!” (“demasiado grande para falhar”)? Somos um só povo na “nave espacial Terra” de Buckminster Fuller, mas um povo que não se uniu por um objectivo claro… Somos antes uma espécie de dominó com biliões de pessoas em que a fragilidade de alguém ameaça claramente todos os outros. Exagerando: o nosso comportamento colectivo não anda longe de uma manada de animais em que o susto de um pode levar ao pânico e à morte de muitos.

A estratégia que proponho para repensar a apologia da técnica, da racionalidade fria e da dominadora ciência que parece ter permissão para invadir tudo, é exactamente a análise do passado dessa mesma ciência que hoje nos parece ancestral. Aceitando a procura de um vernacular analógico da ciência do século XX, proponho uma viagem a uma série de invenções obsoletas sobre as quais recaía a propriedade intelectual conferida pelas respectivas patentes. Cada uma dessas patentes contem uma breve descrição textual e um diagrama supostamente anónimo daquela invenção (nunca considerado original e cuja autoria não importava). São estes diagramas/gravuras que digitalizados e sobrepostos nos relembram os mecanismos que afinal encerravam humanidade, emoções, beleza, história, sensibilidade e o fulgor de um tempo em que tudo parecia ser possível. Este tempo recôndito dos nossos avós que contrasta brutalmente com o presente por ele criado.

A metodologia e os meios utilizados nesta exposição fundem por isso pintura, com impressões digitais onde se sobrepõem digitalizações de diagramas de patentes antigas. Esses diagramas nunca estiveram sujeitos a copyright e os direitos conferidos pela própria patente também expiraram há muito. A apropriação de objectos e a sua convivência com pintura, telas, luz e o trabalho digital pretendem levar-nos a um mundo de quimeras em que os meios de expressão se interpenetram. Esse é também um mundo em que os diagramas de um certo tipo de máquinas se sobrepõem visualmente, tentando apontar para uma máquina genérica que cumpre uma determinada função. Um conceito é isso mesmo, uma generalização ou abstracção gerada pela sobreposição de objectos da mesma categoria. Quando sobrepomos todos os diagramas de diferentes patentes sobre máquinas que desempenham a mesma função, temos uma visualização possível do conceito dessa máquina.

Esta exposição pretende então trazer-nos o início de um fenómeno com que convivemos no quotidiano. O início do poder supremo da tecnologia. No início desse processo encontramos a passagem do tempo a outro ritmo, um mundo que gira sobre mecanismos numa escala humana e não com electrões subatómicos à velocidade da luz. Encontramos nesta visão uma tecnologia com patine, uma estrutura formalmente bela que radica na função visível e compreensível da máquina. À medida que o tempo avançou para o presente esta clareza do mecanismo encriptou-se no mundo do invisível e probabilístico.

O que pretendo oferecer é uma visão nostálgica de um certo tipo de tecnologia que veio a definir o digital: o vernáculo analógico da grande explosão científica que definiu por sua vez o Pós-Modernismo em que continuamos a viver.

Se anteriormente procurei desenvolver uma arqueologia visual para investigar a antiguidade digital, agora pretendo fazer uma investigação e uma extrapolação da nossa ancestralidade analógica. É portanto um aprofundar da consciência pré-digital que já tinha começado a desenvolver em exposições anteriores. Se antes me interessava uma antiguidade tão próxima do presente que podia tornar o dia de hoje antigo mesmo antes de chegar o amanhã, agora pretendo encontrar constantes neste processo histórico-mítico do século passado. Somos os primeiros a conhecer aqueles que fizeram a nossa pré-história contemporânea. Assim, podendo comparar o nosso mundo com o dos nossos avós modernos talvez tenhamos alguma hipótese de os entender e questionar as formas actuais.

Outra mudança que pretendo atingir nesta exposição é integrar a liberdade experimental destes tempos modernos, dando primazia à harmonia do visual e do conceptual, sem problemas em sobrepor a uma imagem impressa, tinta e verniz, integrar elementos abstractos no figurativo ou dar uma leitura anónima ao representativo que passa assim a ser abstracto. Neste caso a fusão e a síntese de elementos cuja essência diverge é suficiente para não ter de procurar mais nenhuma fricção. A única preocupação neste processo passa a ser antes o equilíbrio e a harmonia da diferença, já que o atrito é inevitável: penetramos no mito que alimentou o facto. A origem transcendental, neste caso, é apenas analógica e palpável.

Esta investigação levou-me a concluir que a nossa existência digital (tudo o que publicamos na internet) é uma tatuagem definitiva que nos persegue mas também que tudo o que foi feito nesse mundo de heróis e semideuses modernos transcende essa permanência chegando provavelmente a roçar o eterno. Tanto hoje como naquela altura, tudo o que fazemos passa a ser definitivamente parte do que somos e só desaparecerá quando desaparecerem as últimas memórias do que fomos. Neste mundo analógico a replicação era mais lenta mas as consequências eram idênticas: o eterno retorno de toda e qualquer acção. Repetindo-se mecanicamente para toda a eternidade a uma velocidade crescente. Tanto por contraste como por semelhança a nossa curta memória contemporânea diminui enquanto crescem os registos de tudo o que fazemos… Registos sem fim numa outra dimensão… e isto só pode ser identificado através dos contrastes entre a ancestralidade moderna e a contemporaneidade vertiginosa actual.

Fazem parte desta exposição duas instalações (uma na casa museu Medeiros e Almeida e outra no átrio do espaço Amoreiras) e trabalhos, que incluem pintura, impressão digital, mixed media e assemblagem.

116/08/2012 – www.ragusanews.com/articolo/28021/giorgio-agamben-intervista-a-peppe-sava-amo-scicli-e-guccione

Traduzido em Português do Brasil: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/512966-giorgio-agamben